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Estudo Bíblico

“Deus viu que era bom”: o que essa frase de Gênesis 1 significa?

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Vale verde ao amanhecer, com um rio, árvores e pássaros sob uma luz dourada que se espalha pelo horizonte
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Se Deus sabe tudo, por que Gênesis 1 mostra Deus parando para “ver” que a luz era boa, como quem confere o resultado de um trabalho? A cena é curiosa. A própria Bíblia ensina, em vários outros lugares, que Deus conhece todas as coisas. Mesmo assim, o texto não diz “Deus criou a luz, e era claro que ela era boa”. Diz que Deus viu.

O paradoxo é real, e muita gente tropeça nele. Será que Deus estava avaliando o próprio trabalho sem ter certeza do resultado? Será que algo poderia ter saído errado? A resposta mostra que essa frase, que aparece sete vezes em Gênesis 1, diz bem menos sobre o que Deus ficou sabendo e bem mais sobre o que Deus sente diante do que fez. Neste guia, seguimos o texto passo a passo, do refrão da criação até o “muito bom” do sexto dia.

Um aviso antes de começar: o foco aqui não é debater a duração dos dias da criação nem a relação do texto com a ciência, assuntos em que cristãos sérios divergem. O foco é o que o refrão quer comunicar.

Se Deus sabe tudo, por que precisou “ver”?

A Bíblia afirma em muitos lugares que o conhecimento de Deus não tem limite. O salmista diz que o entendimento do Senhor não se pode medir (Salmo 147:5), Isaías o apresenta anunciando o fim desde o princípio (Isaías 46:10), e o Salmo 139 descreve alguém conhecido por Deus até nos pensamentos, antes de eles virarem palavras. Por isso, o primeiro passo é afastar uma leitura: o texto não está dizendo que Deus descobriu algo.

Pense em um artista que planejou uma tela durante meses. Quando dá o último traço e se afasta alguns passos, ele não está descobrindo o que pintou. Está contemplando. Está aprovando, desfrutando, dizendo a si mesmo que ficou como queria. É esse tipo de “ver” que o texto sugere.

Quando a Bíblia fala de Deus como se Ele fosse gente

Gênesis 1 não é o único lugar em que a Bíblia descreve Deus com ações humanas. No jardim do Éden, Deus anda pelo jardim na viração do dia (Gênesis 3:8). Em Babel, o Senhor desce para ver a cidade e a torre (Gênesis 11:5). Em Gênesis 6:6, o texto diz que Deus se arrependeu de ter feito o ser humano. Ninguém imagina que Deus tenha pernas, que precise descer de algum lugar ou que mude de ideia como uma pessoa indecisa. É uma forma de falar, que os estudiosos chamam de antropomorfismo, palavra que vem do grego e quer dizer “forma humana”.

O teólogo João Calvino, no século 16, explicava isso com uma imagem bem humana: assim como uma babá fala de modo simples com um bebê, Deus “balbucia” conosco na Escritura. Ele usa as nossas palavras e as nossas imagens porque só assim conseguimos entendê-lo. Esse princípio é conhecido como acomodação: Deus se adapta à nossa capacidade, sem deixar de ser quem é.

No caso de Gênesis 1, o verbo “ver” é o jeito de a Bíblia dizer que Deus contempla a obra e a aprova. Não é a avaliação de quem tem dúvida. Vale notar, aliás, que o nome usado para Deus em todo o capítulo é Elohim, o Criador poderoso.

Apreciar não é descobrir

A diferença entre avaliar e apreciar ajuda muito aqui. Quem avalia está tentando saber se algo funciona. Quem aprecia já sabe, e mesmo assim se deleita. Pense em alguém que prepara o prato favorito da família e, ao colocá-lo na mesa, sorri satisfeito. Ele não estava em dúvida se o prato ficaria bom. Estava feliz de ver o resultado.

É nesse sentido que muitos comentaristas entendem o “viu que era bom”: como aprovação e deleite, e não como checagem. O texto monta uma cena em que Deus se alegra com a própria criação e convida o leitor a se alegrar junto.

Isso conversa com o que acontece no fim da semana da criação. Em Gênesis 2:2-3, Deus conclui a obra, descansa no sétimo dia e o abençoa. O descanso de Deus não é cansaço, é a pausa de quem contempla o que fez.

O que “bom” quer dizer em hebraico

A palavra hebraica por trás de “bom” é tov, e ela vai muito além de “moralmente certo”. Os dicionários de hebraico a definem como bom, agradável, aprazível, e é comum que haja um toque de beleza no que é tov. Em Gênesis 2:9, por exemplo, as árvores do jardim são agradáveis à vista e boas para alimento: a mesma palavra cobre a beleza e a utilidade.

Em Gênesis 2:18, a palavra volta, agora numa negativa: “Não é bom que o homem esteja só”. Ali, “bom” tem a ver com completude, com algo que ainda não está como deveria. Ou seja, tov pode apontar para a beleza, para a função e para a harmonia de cada coisa estar no lugar certo. Os estudiosos debatem o peso de cada um desses sentidos em Gênesis 1, mas todos eles ajudam a ver que não é uma palavra pequena. Dizer que a criação é tov é dizer que ela é bela, bem ordenada e boa para o propósito de Deus.

O refrão de Gênesis 1 e o seu ritmo

Quem lê Gênesis 1 em voz alta percebe um ritmo quase de poema. Cada etapa segue um padrão: Deus fala, a coisa passa a existir, Deus vê que é boa, e o dia termina com tarde e manhã. Em português, a frase aparece com variações pequenas entre uma passagem e outra, como “Viu Deus que a luz era boa” (versículo 4) e “E viu Deus que isso era bom” (nos versículos seguintes). Ela aparece nestes momentos:

  • Primeiro dia: a luz (versículo 4)
  • Terceiro dia: a terra e os mares (versículo 10) e a vegetação (versículo 12)
  • Quarto dia: o sol, a lua e as estrelas (versículo 18)
  • Quinto dia: os animais do mar e as aves (versículo 21)
  • Sexto dia: os animais da terra (versículo 25) e, no final, tudo o que Deus fez (versículo 31, “muito bom”)

Somando o “muito bom” final, a avaliação aparece sete vezes. Na Bíblia, o número sete costuma sugerir plenitude, e muitos estudiosos veem nisso uma escolha literária deliberada: o capítulo é construído para que o leitor sinta que a criação foi completa e bem acabada. Alguns comentaristas notam ainda um paralelo curioso: o terceiro e o sexto dia têm, cada um, duas avaliações.

Por que o segundo dia não tem o refrão?

Quem conta direitinho nota uma ausência. No segundo dia, quando Deus separa as águas e faz o firmamento, o texto hebraico não diz que Deus viu que era bom. A tradução grega antiga do Antigo Testamento, a Septuaginta, acrescentou a frase no versículo 8, mas o texto hebraico não a traz.

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Por que essa lacuna? Existe mais de uma explicação. A mais comum entre os comentaristas, já defendida pelo rabino medieval Rashi (chamado de Jarchi em textos antigos), é que a obra das águas só termina no terceiro dia, quando as águas se ajuntam e a terra seca aparece. Por isso o terceiro dia recebe duas avaliações, como se compensasse. Uma tradição judaica antiga, registrada num midrash, oferece outra leitura: a separação das águas trouxe à criação a ideia de divisão, e por isso a aprovação ficaria de fora. Nenhuma dessas explicações é certa, e vale tratá-las como hipóteses.

O sexto dia: do “bom” ao “muito bom”

Chegamos ao ponto alto do capítulo. O sexto dia é o mais carregado de todos, e o ritmo muda. Primeiro, Deus faz os animais da terra e vê que era bom (versículo 25), como nos dias anteriores. Em seguida vem algo novo: em vez de um simples comando, Deus delibera, “Façamos o homem à nossa imagem” (versículo 26). O ser humano é criado à imagem de Deus, homem e mulher, e é abençoado (versículos 27 e 28). E só então chega o veredito final:

E viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom.Gênesis 1:31 (Almeida)

Compare com os dias anteriores. Em vez de “era bom”, agora é “muito bom”, em hebraico tov me’od, algo como “bom em grau máximo”. E, em vez de olhar para uma parte específica da criação, Deus olha para “tudo quanto fizera”. A expressão “eis que”, em hebraico hinnēh, convida o leitor a olhar junto, como quem diz: veja você também.

O “muito bom” é só sobre o ser humano?

É comum ouvir que Deus declarou o ser humano “muito bom”, e a ideia é bonita, mas o texto é um pouco mais cuidadoso. O ser humano não recebe um “bom” isolado, como as outras partes da criação. O “muito bom” vem sobre tudo o que Deus fez, e o ser humano está incluído nesse conjunto. Muitos comentaristas entendem que o veredito final vale para a criação inteira, como uma conclusão do capítulo.

Isso não diminui o ser humano, pelo contrário. A diferença está no que vem antes do veredito: ele é o único criado à imagem de Deus, é abençoado e foi colocado no jardim para cultivá-lo e guardá-lo (Gênesis 2:15). O “muito bom” só chega depois que ele aparece, como se o quadro só ficasse completo com ele dentro. A criação é boa em cada parte, e muito boa quando está inteira.

Quantas vezes Gênesis 1 diz que Deus viu que era bom?

Seis vezes com “bom” (versículos 4, 10, 12, 18, 21 e 25) e uma vez com “muito bom” (versículo 31), o que dá sete avaliações ao todo. O segundo dia é o único dos seis primeiros sem a frase.

O mundo continua sendo bom depois da queda?

A Bíblia não nega que algo se quebrou. Gênesis 3 mostra a entrada do pecado, e Romanos 8:19-22 fala da criação que espera ser libertada. Mas ela também não anula o veredito original. Paulo escreve que tudo o que Deus criou é bom e que nada deve ser rejeitado quando recebido com ações de graças (1 Timóteo 4:4), e o Salmo 19:1 diz que os céus proclamam a glória de Deus. O mundo é bom e ferido ao mesmo tempo, e a esperança cristã é que a ferida não terá a última palavra.

Deus se arrependeu de ter criado o mundo?

Gênesis 6:6 diz que o Senhor se arrependeu de ter feito o ser humano, e é um dos exemplos de linguagem humana que vimos antes. Muitos teólogos leem essa frase como expressão de dor diante do pecado, e não como confissão de erro de planejamento. Outro texto, Números 23:19, afirma que Deus não é homem para que se arrependa. Cristãos conciliam essas duas passagens de formas diferentes, mas quase todos concordam que o “era muito bom” de Gênesis 1 não é retirado.

O que isso muda na forma de ver o mundo (e a nós mesmos)

Saber que Deus se deleitou com o que criou muda o jeito de olhar o que está ao redor. O pôr do sol, o barulho da chuva, o sabor do pão, o riso de uma criança: tudo isso já foi olhado e aprovado por Deus antes de qualquer um de nós chegar. Jesus apontou para as aves do céu e os lírios do campo como sinais do cuidado do Pai (Mateus 6:26-30). Prestar atenção neles é uma forma silenciosa de oração e de gratidão.

Também muda o jeito de olhar para si mesmo. O ser humano faz parte do conjunto que Deus chamou de muito bom. Isso não apaga a realidade do pecado e do sofrimento, que Gênesis 3 descreve com honestidade, nem pede que alguém finja estar bem quando não está. Mas diz de onde viemos: de um olhar de aprovação, e não de um erro. Para quem atravessa um período em que se sente de menos, isso importa. E, se a tristeza for constante, conversar com alguém de confiança ou com um profissional de saúde também faz parte do cuidado. A esperança é que o que foi quebrado será refeito: Apocalipse 21:5 fala de um Deus que faz novas todas as coisas.

Uma prática simples para esta semana: leia Gênesis 1 devagar, em voz alta, e pare a cada “viu que era bom”. Pergunte a si mesmo o que, no seu dia, merece o mesmo olhar. Se quiser aprender a ler a Bíblia com mais calma, o nosso guia sobre como estudá-la sozinho pode ajudar.

E você, já tinha parado para pensar que a primeira avaliação da Bíblia sobre o mundo é de alegria? Qual dessas ideias mais chamou a sua atenção: o artista que contempla a obra, o refrão que se repete ou o “muito bom” do sexto dia? Conte o que você pensa pela página de Contato do site, vamos gostar de ler a sua opinião.

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